Artigo: Tramas do Cotidiano e a experiência de SER mulher
Reflexão sobre os desafios, expectativas e desigualdades que atravessam a experiência feminina na sociedade contemporânea, escrita pelas psicólogas organizacionais do trabalho do Núcleo de Atenção à Saúde do Servidor (Nass) do IFSul
O Dia Internacional da Mulher costuma ser marcado por homenagens, flores e palavras de reconhecimento. Mas talvez esta data também precise ser um momento de olhar com mais honestidade para a experiência de ser mulher na sociedade.
Desde muito cedo, muitas meninas aprendem que existem expectativas sobre quem elas devem ser e como elas devem comportar-se. Ainda persistem ideias antigas que permeiam gerações: de que a mulher deve cuidar da casa, que precisa casar, que precisa ser mãe para se sentir completa, que deve colocar as necessidades dos outros antes das suas.
Também sobrevivem preconceitos que, muitas vezes, aparecem disfarçados de brincadeira ou de opinião: que mulher não dirige bem, que não é boa líder, que é emocional demais para tomar decisões importantes, que não tem aptidão para exatas, que é biologicamente preparada para o cuidado do outro.
Essas ideias, repetidas ao longo do tempo, acabam moldando silenciosamente a forma como as mulheres se percebem e são percebidas no mundo. A este fenômeno chamamos de sexismo que opera como um eixo estruturante das desigualdades nas organizações ao sustentar uma divisão sexual do trabalho que, pautada pelo machismo, deslegitima a capacidade laboral feminina ao confiná-la simbolicamente ao trabalho reprodutivo e de cuidado.
No cotidiano das instituições, essa violência se materializa em "tramas invisíveis" e comportamentos de desqualificação, como o mansplaining, o manterrupting, o bropriating e o gaslighting, táticas que distorcem a realidade e sobrepõem o raciocínio masculino ao feminino para minar a autonomia e a confiança das mulheres em seus espaços de atuação. Com isso, elas sentem que precisam provar constantemente sua competência, sua capacidade e seu direito de ocupar determinados lugares.
Ser mulher, muitas vezes, significa carregar uma soma de expectativas: ser dedicada no trabalho, presente na família, cuidadora, organizada, sensível, forte. Espera-se que dê conta de tudo — e que faça isso com um belo sorriso, maquiada e de salto alto.
Não é difícil entender por que tantas mulheres vivem ESGOTADAS.
Há um cansaço que não provem apenas do excesso de tarefas, mas da sensação constante de precisar se provar, justificar escolhas e corresponder a tantas exigências ao mesmo tempo e agradar a todos e todas.
E, nesse caminho, algo importante muitas vezes fica para depois: o direito de cuidar de si mesma. Entre as mulheres, é comum a dificuldade de se permitir momentos de descanso, de prazer, de leveza. Como se, parar, desfrutar ou simplesmente viver algo para si, fosse quase uma transgressão.
Durante muito tempo, inclusive, o prazer feminino foi cercado de silêncios e julgamentos. Esperou-se que a mulher fosse recatada, dedicada ao outro, ensinada a cuidar e servir, mas raramente incentivada a reconhecer seus próprios desejos.
Ao mesmo tempo, vivemos em uma sociedade onde as mulheres ainda são frequentemente julgadas e responsabilizadas por violências que sofrem. Uma sociedade de dedos apontados: questiona-se a roupa, o comportamento, as escolhas, como se, de alguma forma, a mulher tivesse provocado ou merecido a violência.
Esse olhar que julga, controla e culpa também produz sofrimento. Ele alimenta uma cultura onde o ódio, o desrespeito e a violência contra as mulheres ainda encontram espaço para existir.
Reconhecer estas desigualdades e vulnerabilidades é o primeiro passo para romper com a cultura de silenciamento e deslegitimação feminina. É um dever ético garantir a dignidade e a liberdade de todas as mulheres.
Que o Dia da Mulher seja mais do que uma data de homenagens no IFSUL. Que seja também um convite à reflexão sobre as pressões, os preconceitos e as violências que ainda atravessam a vida de tantas mulheres. Talvez um dos caminhos mais potentes seja o da sororidade: mulheres que se reconhecem, se acolhem e se fortalecem umas às outras. E que os homens também possam caminhar ao nosso lado.
Por isso, falar sobre Ser mulher hoje também é falar sobre dignidade, respeito e liberdade. Liberdade para existir de muitas formas, para escolher caminhos, para ocupar espaços, para viver com autonomia e, sobretudo, sem medo.
Que a experiência de Ser mulher possa tornar-se, simplesmente, viver plenamente todas as possibilidades da vida.
Convidamos a Comunidade do IFSUL a engajar-se nesta luta!
Psicólogas Organizacionais e do Trabalho – Reitoria |Núcleo de Atenção a Saúde do Servidor (NASS)
Leticia Iorio Krause, Psicóloga CRP 07/11111, Mestre em Saúde da Mulher da Criança e do Adolescente
Liliane da Costa Ores, Psicóloga CRP 07/15681, Doutora em Saúde e Comportamento
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